quinta-feira, 5 de julho de 2012

Querido meu Nunca

12guitars:

(by stefanyalves)

Querido meu nunca,
Parte de mim quer dizer adeus, mas parte de mim ainda quer tentar. Presa em palavras jamais proferidas, perdoe-me por ter me engasgado e sufocado com o som do silêncio que emanou de nós. Ô menino, vê e diz que vai voltar quando acabar tua volta pelos confins desse mundo, quando as luz das cidades se apagarem, quando o som não mais te encantar e tua mente ensurdecer. Ô menino, volta pra casa. Cansei de ter-te ao meu lado sem saber se sente meus abraços e afagos, se os beijinhos e os carinhos trocados ainda são revividos, sem saber se entre paredes e sofás tua imaginação ainda voa intensa como as mãos percorreram uma vez. Se só mandar bilhetes não funcionar, fique bem longe, fique bem. Gosto demais de você pra não fazer parte da minha vida, e sofrer por vento vai dos ares até o nada, e o coração que dói é derramado em vazio. Cai em forma de poesia.
Contudo, só suma se souber que te amo, um pouquinho.
As luzes da cidade ainda brilham? Aqui as estrelas que já morreram ainda reluzem, e o tempo que corre ainda anda devagar demais. Por vezes demais me pergunto como você está, onde anda, se anda bebendo, se começou a fumar, se ainda se esgueira pelos cantos da noite com várias ‘elas’, se ainda tem aquele sorriso-malícia naquela expressão com olhos oblíquos e o rosto que grita: garota, vou quebrar seu coração! Não sou do tipo nostalgia, mas hoje na rua vi nós dois caminhando há um tempo atrás, quando tudo começou um sussurro sapeca e acabou com um adeus mal acabado. No meio dessa história você era gravidade que flutuava pelas manhãs e pelas tardes, e às noites, às noites mergulhava em um mar de som e tudo, uma música misteriosa que cativava e conquistava o seu redor; e eu era uma bailarina dançando e fazendo piruetas pelo seu labirinto, uma equilibrista segurando travessias por cima de muros e por baixo de túneis, um sorriso ingênuo brilhante como o sol que dava ritmo ao teu som. Foge comigo, devolve o meu ritmo, o que pegou emprestado e faz a tua batida virar música de novo. Vê se ainda tá chovendo, que se estiver, a gente se molha.
Como resposta tua não quero mudez. Não quero ser ignorada, menino da cidade. O silêncio já se faz presente todos os dias e não é o som que quero ouvir, porque aqui dentro tá apertado, minha cabeça está me comendo inteira e o coração vai batendo num compasso estranho. Desacredito do teu nada, porque temo que estejas certo. Mas oh, Deus! Sei que sou enganadora, vivo me enganado por qualquer coisa. Oh, Deus! Sei que sou mentirosa, vivo mentindo para o espelho por qualquer coisa. Por você. Será que você lê meus olhos e entende que nas minhas muralhas tem uma porta secreta, que balança atrás de nós? E como uma bala você aparece de repente me empurrando e trazendo à tona num segundo o que levei um ano para trancar à oito chaves, só para depois sumir como um fantasma. Não faz isso de brincar de ser real, garoto. Não faz que dói. Não faz que eu aturo, pois por você sou uma tola, uma boba, uma ingênua inexperiente que se deixa levar. Teu tudo me encanta, me fascina e me assusta. Fico à deriva por não achar esconderijo, fingindo que você foi só um qualquer um.
Saiba que se algum dia se sentir acuado pelo som da vida e pela luz dos carros, ainda tenho no peito o teu nome, e espero ao pé da porta com os braços abertos, o coração na boca, o relógio vagaroso ali do lado.
Os que têm sentido na cabeça disseram que era hora de deixá-lo ir, sair de mim. Acho que sim. Estamos sós agora, não estamos? Só não sabem que eu não tenho sentido na cabeça. Esta foi ocupada por um som que não fica mudo, que só aumenta, só aumenta, mais doce que o paraíso e mais quente que o Sol, eu jurava que você poderia ouvi-lo. Afinal, não é possível voar sem asas e cantar sem voz, então por que deveria deixá-lo sumir de mim? Deixa teu fantasma ficar, mesmo que acabes se apaixonando pelas musas, ah, cidade grande. Só te peço que não se conforme com pouco e abandone os sonhos que sei que tem.
Ô menino, vê se não esquece de mim, que eu ainda tou aqui, sentadinha no pé da porta, com o relógio estragado e o coração sem compasso.
Assinado, sinceramente sua.

Giulia

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